Nas últimas semanas, passei por duas experiências que me fizeram pensar muito e rever meus conceitos sobre a dança. Sobre a dança para todos os seres humanos.
Experiência 1:
No dia 28 de novembro, estive na Casa Z e fiz uma vivência de dança com a Sayonara. Foram quatro horas dançando, num grupo com várias mulheres de diferentes idades, com diferenças de estudo de dança, de idade, de intenções. Dançamos em círculo, dançamos sobre a terra, entre as folhas perfumadas, estimuladas pela pimenta, com balões. Dançamos até ficarmos exaustas, sujas e suadas. COMO dançamos não era fundamental ali. Mas sim o fato de que foi uma experiência altamente libertadora. Ali criei algumas de minhas sequências mais criativas e ousei movimentos nunca aprendidos.
Experiência 2:
Na última quinta-feira, dia 3, fui a uma mostra de dança organizada pela Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, que reunia grupos de dançarinos da comunidade. Alguns grupos infantis, outros de jovens e muita, muita gente da terceira idade.
E, sem demagogia nenhuma, foi um dos espetáculos mais bonitos e despretensiosos que já vi. E que levantou muito a platéia, provando que não estou doida.
Vi uma senhora com tanto excesso de peso, que tinha até certa dificuldade de andar. Mas estava ali, dançando, muito feliz, obrigada. E não havia nada de feio em seus movimentos. Vi uma senhora nos seus oitenta anos dançando uma música lenta e que, se não tinha o alongamento de uma bailarinazinha profissional de vinte anos, nos encantou com a suavidade de seus gestos e sua aguçada musicalidade. Vi idosas dançando tango, dançando samba. Vi uma gordinha muito feliz dançando Dancing Queen num colant e com um boá de penas roxo. E tudo era belo. E eu me emocionei como raramente acontece com dançarinas profissionais.
Essas experiências passaram longe, muito longe das nossas discussões de dança da internet, que analisam os vestidos da Dina ou os cambret não-faça-isso-em-casa da Saida. Passaram muito longe do “só vale danças perfeitas executadas por corpos perfeitos”. Aliás, pecam totalmente no quesito perfeição, embora aperfeiçoamento e superação fosse a tônica em cada um daqueles corpos dançantes.
E aí eu descobri uma série de coisas que talvez só sirvam para mim. (Talvez para algumas AMADORAS, jamais para profissionais.) Mas esse blog é meu, né? Então, vá lá.
1) A procura doente de perfeição é o maior limite para a criatividade. Não estou sugerindo que todo mundo largue as aulas e deixe de se aperfeiçoar. Mas, ao menos para quem escolheu não viver em função da dança, deve ser uma consequência, mas um objetivo.
Não se deixe obcecar pelos sonhos da sua professora. A profissional é ela, não você. Não se permita ser pressionada. Não se submeta a ficar tensa, passar noites sem dormir, preocupada com uma apresentação amadora (isso não quer dizer faltar aos ensaios e querer entrar no último dia, nem “deixar pra lá” – significa que você tem o direito de CURTIR aquilo que você faz por hobby ou para elevar seu espírito). Não chore uma noite inteira porque cometeu um erro de coreografia no palco, ou porque seu adereço de cabeça caiu. Se alguém te fez aspirar pela perfeição em um momento, lembre-se que talvez essas aspirações não sejam suas.
2) Todo movimento humano é belo. Claro que ele pode ficar melhor. Mas todo movimento feito com intenção, por limitado que seja, é belo. Não se torture olhando seus vídeos e buscando o alongamento e a precisão que sua professora que treina quatro horas por dia há quinze anos tem. Busque, antes, o sentimento que você colocou naquela dança (se ele não existe, aí é legal pensar, porque dança sem sentimento não faz sentido), a gentileza que seu corpo permitiu transmitir. E seja feliz com isso.
Quando vamos dançar sozinhas, muitas vezes nossa criatividade se trava na comparação com as profissionais. Lembro que quando comecei, não conseguia coreografar porque só imaginava coreografia para corpos ilimitados. Até lia uma coisa ou outra com movimentos simples, mas achava mediocre demais para executar. Não me dava conta que o movimento simples, executado com precisão, é dono de uma beleza única. Mais do que imaginar, é muito mais fácil coreografar sentindo a música com o corpo. Aí a gente obtém uma dança que o corpo PODE e GOSTA. Estou começando a aprender sobre isso.
3) A dança é uma celebração. É quando gritamos nossa alegria por termos corpos e podermos movê-los (plenamente ou não). Podermos expressar nossos sentimentos através deles – mesmo que sejam sentimentos tristes.
Esse é um dos motivos que me faz, muitas vezes, apreciar mais uma apresentação amadora que uma profissional. Só aprecio profissionais que tenham mantido esse espírito de gratidão pelo corpo, de prazer com o movimento, de entrega para a dança, de comunhão com o público. (Objetivos que você pode atingir sim, com os movimentos que é capaz de fazer.)
O que me dei conta, nesse intervalo de tempo, é que amadores praticamente não discutem sua dança na internet. A maior parte da bellyblogosfera é de professoras e, mesmo as amadoras, como eu e Lory, passamos muito tempo debatendo sobre o trabalho das profissionais, com algum espaço para nossas performances e desafios. Nada errrado com isso, as profissionais sempre serão nossa fonte de inspiração. Mas talvez conversar mais sobre a beleza do imperfeito e sobre como lidar com nossas limitações e nosso valor não seja uma idéia tão ruim.